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Entrevista com Jon Ronson – Publicamente Humilhados

Publicado 8 setembro 2017
Última atualização em 8 setembro 2017

É normal humilhar outro ser humano – alguém que você somente conheceu por um tweet? Você se sentiria confortável em ser duramente julgado por uma única foto ou comentário postado nas redes sociais? Esse não é um exercício hipotético: a grande maioria de nós já participou ou vivenciou (com um pingo de prazer e felicidade) de uma humilhação nas redes sociais. Antecedendo seu relato à Relate Live em Nova York, o autor do livro Então Você Está Sendo Humilhado Publicamente, Jon Ronson, explora como o julgamento funciona atualmente no universo das redes sociais. Acompanhe a entrevista!

Sobre o que você falou no Relate Live New York?

A conversa que eu tive nessa conferência foi sobre o meu novo livro (Então Você Está Sendo Humilhado Publicamente), mas também sobre o que eu aprendi durante o processo de escrita de outros livros. Em resumo, eu acredito que eu aprendi que quando você é curioso, cabeça aberta, tem empatia e compaixão pelos outros, ótimas coisas acontecem. É como se as portas se abrissem para novos mundos sensacionais.

Quando você instantaneamente julga e condena, nada acontece porque as portas simplesmente se fecham. Tudo que você faz é tornar a vida de alguém pior e muitas vezes eles até merecem, porém em muitas outras não. Isso soa para mim como se estivéssemos perdendo a capacidade de ter curiosidade, pena e compaixão, e essas são coisas terríveis para se perder.

Por que nos sentimos tão confortáveis humilhando pessoas nas redes sociais?

Um grande número de humilhações nas redes sociais está vindo de uma intenção em ser justo, e essa é a grande ironia da situação.
Quando as pessoas destruíram Justine Sacco, eles pensaram que estavam fazendo algo bom. Um grande número de atos violentos vem de pessoas que acreditam estarem fazendo algo bom.

Eu acredito que o outro fator é que quando você reduz todo o comportamento humano a uma informação que pode caber em um tweet, tudo se torna muito preto no branco, e esse é o motivo pelo qual nas redes sociais todo mundo é ou um grande herói, ou um terrível vilão, e não existe espaço para as pessoas que querem ficar no meio do caminho.

Quando você olha para quem está aparecendo como o assunto de um dia qualquer, você pode ter certeza que essa pessoa virou o grande foco do dia porque foi um herói, ou porque foi o pior monstro do mundo. De uma maneira muito estranha, eu penso que esses são dois lados da mesma moeda. Porque seres humanos reais estão sempre vagando na vida real entre ser sensacional ou ser chato. E esse intervalo no qual eles estão vagando é que as coisas mais interessantes acontecem, e ninguém parece estar habitando esse lugar atualmente.

É muito difícil viver uma vida normal em apenas cento e quarenta caracteres?

Exatamente. Meu trabalho dos últimos 20 anos é todo sobre esse intervalo que vagamos. Nas duas palestras que dei no TED, eu termino a conversa com um apelo para lembrarmos que seres humanos são duplamente espertos e estúpidos e que a humanidade se encontra exatamente nesse intervalo.

Às vezes as organizações se tornam foco das humilhações públicas ao invés das pessoas, como aconteceu, por exemplo, com o escândalo das emissões da Volkswagen. É diferente humilhar uma empresa de uma pessoa?

Uma companhia é feita de pessoas. Humilhar uma organização não é uma ação tão inofensiva em termos de crueldades feitas com indivíduos. Pessoas como Brene Brown diriam que a humilhação nunca funciona.

Agora eu sou quase tão radical quanto ela sobre esse assunto, porém não tanto como ela. Tem o escândalo da VW e também o escândalo daquele farmacêutico que aumentou o preço dos remédios contra a toxoplasmose de $13 para $750. O New York Times escreveu sobre ele e aí as redes sociais ficaram loucas. Eu acredito que se o New York Times tivesse escrito sobre ele e nada mais tivesse acontecido, ele provavelmente continuaria fazendo o que fazia. Nessa situação, o ódio das mídias sociais que fez campanha contra ele e forçou a redução dos preços das drogas.

Eu não consigo ver como isso não é uma coisa boa. Então temos a Black Lives Matter e a história da VW. Isso é um bom jornalismo investigativo. Aquilo que vimos anteriormente são campanhas de justiça social, onde a destruição de Justine Sacco por contar uma piada que soou mal – e temos vários exemplos dessas situações – não faz bem para ninguém. Isso é somente fazer bulling em prol do politicamente correto.

O que nós temos que trabalhar é: qual a diferença entre a justiça social de verdade e a justiça social caricata?

Como é subentendido que o povo é que tem o poder, depende da gente definir quando uma busca por justiça é merecida ou não. Se a companhia fez algo estúpido e todo mundo aponta a culpa para essa companhia, temos que entender que isso não é uma acusação sem vítimas. Porém, se a companhia fez algo que é realmente considerado errado, tudo bem. Você teria que ser um trouxa por não querer corrigir o que está errado.

É a necessidade de ser moralmente certo o que alimenta humilhadores e todo o processo de humilhação?

Sim, eu acho que um monte dessas humilhações são humilhações morais e isso é realmente irônico porque muitas vezes elas entram em uma espiral que foge completamente do controle e pessoas inocentes acabam prejudicadas. Você só tem que olhar para a confusão com a Ashley Madison. Isso foi uma humilhação moral, e agora há supostamente quatro suicídios relacionados com o caso. Basicamente este tipo de humilhação moral tem levado à morte. Se não é a morte, é saúde mental das pessoas que fica mutilada; as pessoas perdem seus empregos e muito mais por isso. As situações são, muitas vezes, desproporcionais a seus crimes.

É muito interessante ver que é a nossa moral, nossa justiça e nosso desejo de fazer o bem, para nivelar o campo de jogo, que acaba dando voz para as pessoas que não conseguem ter voz. Apesar disso, muitas vezes, são esses esforços nobres que levam a esses resultados horrendos que discutimos anteriormente. É realmente importante apontar isso e mostrar também que isso não significa que, se você discorda de alguma coisa, é porque está contra o esforço moral. Isso significa que você tem que olhar para ele, na realidade, e pensar se está combatendo uma boa luta.

Você acha que chegamos a um ponto onde as pessoas se preocupam mais com estar certas do que fazer o bem em relação a outras pessoas? Estamos perdendo nossa capacidade de ter empatia?

Eu acho que a mídia social está roubando a nossa empatia, o que significa também roubar a nossa capacidade de distinguir transgressões graves e não graves. Eu acho que nós estamos esquecendo que há seres humanos do outro lado do problema. Essa é uma das razões pelas quais eu queria escrever este livro (Então Você Está Sendo Humilhado Publicamente). Eu queria voltar a humanizar as pessoas que foram destruídas. Eu acho que é provavelmente por isso que eu faço a maioria das histórias que eu faço: é como se fosse possível demonizar os demônios. Este sentimento é especialmente importante para mim, porque acredito que as pessoas que estão sendo destruídas estavam sendo destruídas por pessoas agradáveis ​​como nós. Isso torna a história mais difícil de contar, mas também mais gratificante.

Estou muito orgulhoso do meu livro psicopata, mas é bastante fácil de dizer: “Olha aquele CEO psicopata que fez aquela coisa terrível para as pessoas que trabalham lá.” Isso é uma coisa fácil, confortável para nos deixar chateados e revoltados, ao invés de dizer: “Olhe para aquela mulher inocente que nós acabamos de destruir dormindo em um avião“. Essa é uma história mais complicada e, por isso, uma história mais gratificante de contar.

Em “Então Você Está Sendo Humilhado Publicamente”, você fala sobre a mídia social criando um palco para um grande drama artificial. Os meios de comunicação tradicionais contribuíram para este problema?

Sim, com certeza. É uma das coisas que realmente me faz sentir muito triste. As mídias sociais tiveram a oportunidade de tornar tudo melhor, mas na verdade estamos apenas repetindo os mesmos erros que a mídia tradicional cometia.

Eu também acho que o domínio da mídia social vem tornando a mídia tradicional ainda pior, porque a mídia tradicional permite que o Twitter defina o problema e depois segue tudo que acontece por lá. O Twitter decidiu que a Justine Sacco é terrível e precisa ser humilhada, e assim as mídias tradicionais vão junto com ele. Até as crianças nerds tentam dar uma de valentões. Essa foi uma das coisas que realmente mais me chocou quando eu comecei a escrever este livro. Fui criado em um mundo do jornalismo, onde é esperado que você seja destemido e capaz de falar a verdade, porém, quando a energia é proveniente das mídias sociais, a mídia tradicional tem muito medo de falar a verdade para ele. Os principais meios de comunicação apenas seguem o ritmo do que está acontecendo, porque estão com medo e inseguros.

Quando a mídia social começou eu acredito que a grande mídia estava pensando: “Se nós ignoramos, ela vai embora.” Agora, a grande mídia é apenas totalmente e pateticamente grata e dependente dela. É realmente chocante. É absolutamente chocante. Eu senti isso intensamente com Justine Sacco: mesmo que eu ache que um monte de gente sabia que Justine não tinha a intenção de ser racista com essa piada – e que sabia que ela estava sendo prejudicada – ninguém a apoiou. Porque todo mundo estava com medo. Todo mundo estava com medo dos meios de comunicação social.

Se os meios de comunicação – ou alguém – não tentam defender uma terceira pessoa, eles acabam sendo atacados também.

Quando eu defendi Rachel Dolezal, depois que toda a gritaria cessou, outro jornalista britânico disse: “Os jornalistas não deveriam pedir para todo mundo ficar calmo e esperar as evidências chegarem?” E depois outro jornalista britânico disse: “Sim, eu me sinto dessa forma, e eu estava com muito medo de dizer qualquer coisa, o que eu acredito que mostra o ponto que Jon Ronson queria mostrar.”

Mas eu entendo totalmente. Se eu pudesse voltar no tempo, eu não acho que eu teria apoiado Rachel Dolezal naquele dia, porque a situação foi muito desagradável. Desde quando isso acontece com o jornalismo em um país livre? Quando começamos a ter tanto medo de discutir algo que aconteceu? Nós não temos medo de falar quando políticos ou grandes empresas são o foco,
mas por que temos medo de falar quando o assunto chega nas mídias sociais?

Em seu livro, você inclui um exemplo em que as mídias sociais humilham um humilhador conhecido por suas condutas inapropriadas. Por que não temos tanta criatividade quando se trata de acusar esses humilhadores? Por que nós apenas caímos até o nível deles?

Eu acho que a coisa mais fácil que podemos fazer é fazer com que alguém passe vergonha. Está fora de moda ser paciente, atencioso
e compreensivo. Além de se tornar fora de moda, essas atitudes são também um pouco mais difíceis. Elas não são tão instantâneas. O Twitter faz julgamentos e condenação facilmente. A compaixão e a curiosidade levam mais tempo, então eu acho que tem algo a ver com isso.

Isso tudo aconteceu recentemente com o Peeple. [O "Yelp para as pessoas" app que foi notícia.] Eu tenho sido muito cuidadoso para não atacar as duas mulheres que estão por trás do Peeple, e focar em apenas criticar o app. Eu acho que é bom odiar o pecado, mas amar o pecador. Eu acho que a única maneira de sair desta espiral é pensar em maneiras diferentes de tratar as pessoas, que vão além da humilhação pública.

“Eu acho que é bom odiar o pecado, mas amar o pecador”

Se alguém está sendo humilhado e, em seguida, um monte de outras pessoas começa a dizer: “Espere um minuto, olhe para ele a partir dessa perspectiva,” e todo mundo começa a conversar sobre o assunto, tudo bem. O que não é bom é quando cada pessoa só pensa em destruir alguém, que é o que aconteceu com Justine Sacco.

Como jornalista, tenho o luxo de sair, conhecer pessoas, contar histórias e passar tempo com elas e começar a ver o mundo através dos olhos dessas pessoas. Ser compassivo, curioso e ter empatia. Esse é o meu esforço no meio de tudo isto – fazer um esforço para sair e passar tempo
com as pessoas e escrever sobre elas, desta forma mais próxima a elas.

É isso que você acha que as pessoas devem fazer? Muitos de nós devem levantar as mãos e dizer: “Ei, vamos falar sobre isso antes de acabarmos com alguém?”

Totalmente. Isso é definitivamente a resposta, porque isso é democracia. Com toda a situação com Rachel Dolezal, todo mundo começou a me acusar e, de repente, outras pessoas eventualmente começaram a dizer: “Na verdade eu estou do lado de Jon Ronson.” Eu li isso e eu estava tipo, “Oh bem, eu não me sinto tão mal agora.” Notei isso sozinho, e sim essa é a resposta. Isso é definitivamente a resposta.

Jon Ronson é um jornalista e autor de best-sellers, cujos livros incluem Então Você Está Sendo Humilhado Publicamente, O Teste Psicopata e Os Homens que Observavam Cabras. De acordo com Jon, ele escreve ”histórias engraçadas sobre coisas sem graça.”

Monica Norton é uma produtora de marketing de conteúdo para a Zendesk e uma colaboradora frequente da Relate. Ex-jornalista e advogada, Monica quis ser uma escritora desde que escreveu seu primeiro (e último) livro na 6ª série. Encontre-a no Twitter: @monicalnorton.

Jon foi um dos keynotes da conferência Relate Live by Zendesk em New York. No dia 15 de março a Zendesk vai realizar em São Paulo a edição brasileira do evento no Hotel Unique, entre os keynotes do evento você vai encontrar nomes como Washington Olivetto, Chairman da W/McCann, Sr. Ed Lee, Prefeito da cidade de San Francisco, Mikkel Svane, CEO da Zendesk, Jon Wolske, Culture Evangelist da Zappos entre outros. Confira a agenda completa aqui >>